Fly:
Obrigado pelo comentário à secção 2 da Introdução do artigo “Filosofia e Felicidade”.
A figura do extra-terrestre é um recurso estilístico obviamente muito limitado para apresentar um ponto de vista que, formulado abstractamente, ganharia outro rigor. Vista de fora, a História da nossa existência tem qualquer coisa de paradoxal, talvez os Gregos lhe chamassem trágico. Sejam quais forem as atrocidades que os homens cometem, estou em crer (é uma fé, chamemos-lhe assim), nunca andam muito longe de um desejo de felicidade. É evidente que uso este termo na mais lata das acepções, antes de qualquer determinação que a venha a situar nos planos estético, ético, político, religioso ou a tome na esfera individual, interpessoal, social, inter-estadual ou global, e antes, portanto de ser insuflada de conteúdo. Não é meu objectivo, ao longo do artigo (que contará ainda com muitas mais secções) definir a noção de felicidade. Tampouco me atreveria a propor que a Filosofia deva estar ao serviço de qualquer procura de felicidade. Fico-me pela defesa da perspectiva de que a Filosofia implica o exercício de competências que podem ser úteis para a clarificação do projecto de vida de cada indivíduo, oferecendo-lhe, com isso, a possibilidade de reflectir acerca do que poderá significar para si mesmo a felicidade e dos meios de a procurar. A compreensão de que o “bicho” se torna capaz não tem aqui qualquer orientação ética e muito menos moral. Somente cada um de nós sabe como vive interiormente as suas guerras. É aí que aparece a questão da felicidade como urgência (deste ponto de vista, a ética é já qualquer coisa de “exterior”, “objectal”). As éticas mais severas são as primeiras a partir deste ponto essencial de que ela (a sede de felicidade) move cada um de nós. Em geral, são os heróis, os santos e os mártires aqueles que mais resistem à vontade de felicidade. Mas, se se realizam nessa resistência, então já é difícil perceber que tipo de resistência é essa. Além disso, se acabam por ser tomados como exemplos de vida pelas multidões, é porque são glorificados, o que mostra que aqueles que os imitam desejam pelo menos uma parte de tal glória.
Um abraço também para ti. Aguardo novas intervenções. São elas que enriquecem e dão sentido ao projecto da Arte do Perigo.
FM
